Com a inspiração na espiritualidade de São Francisco de Assis, o espaço educacional franciscano apresenta elementos significativos para análise e reflexão. Pensar o jeito franciscano de educar enquanto uma pedagogia do encontro provoca-nos a observar que, no caminho formativo integral do ser humano, faz-se necessário o exercício dos verbos querer, acolher, iniciar e formar acompanhados do substantivo bondade. Diante de uma conjuntura social complexa, marcada pela aceleração tecnológica e pela lógica de mercado, cabe-nos perguntar: que elementos podem ser considerados inegociáveis no ambiente educacional? O que sustenta o jeito franciscano de educar? Essas questões nos mobilizam a buscar de forma sistemática o ser franciscano no que tange à oportunidade humana e intelectual de transformação das realidades.
O verbete que orienta esta reflexão perpassa a dimensão da antropologia, da ética e da pedagogia. Trata de um horizonte normativo, descrevendo o que é próprio da experiência franciscana e prescreve o modo como essa experiência deve continuar sendo realizada em cada geração de professores e de estudantes. Esse movimento entre a descrição e a prescrição aproxima-se do que Saviani (2011) identifica como tarefa da pedagogia histórico-crítica de compreender a educação em sua historicidade concreta sem abrir mão de uma direção normativa para a prática educativa. É a partir desse duplo movimento que pretendemos examinar sistematicamente os verbos que estruturam a formação franciscana: querer, acolher, iniciar e formar.
A pedagogia contemporânea provoca o docente a promover o protagonismo do estudante. A tradição franciscana, ao valorizar o querer do estudante, rompe com qualquer pretensão de uma educação vertical, na qual o estudante seria um recebedor passivo de conteúdo. Compreende-se que ensinar exige respeito à autonomia do estudante, explicitando que não há docência sem discência (Freire, 1996), e o educador que desconsidera o saber do outro fragmenta a tarefa de educar. O conhecimento não é transmitido, mas construído pelo sujeito em sua interação ativa com o mundo, o que reforça, do ponto de vista psicológico, a centralidade do querer como ponto de partida da aprendizagem (Piaget, 1970). Analisando a percepção freireana e piagetiana, reconhece-se que o conhecimento que cada ser humano carrega consigo e compartilha com outrem, constituem a práxis pedagógica. A relação pedagógica que atrela o acolhimento e o cultivo epistemológico do professor e do estudante precisam caminhar de maneira conectiva e integrativa.
Com a bondade torna-se possível o encontro genuíno entre quem ensina e quem aprende, criando assim, condições de confiança e estímulo para a aprendizagem. Esse encontro pode ser lido à luz do conceito vigotskiano de mediação, em que a aprendizagem ocorre na sociabilidade e no espaço relacional entre sujeitos (VIGOTSKI, 1984). A bondade no ambiente escolar significa exercitar o acolhimento das múltiplas subjetividades presentes no processo formativo, colocando-as em convergência e em direção de um objetivo comum: formar sujeitos humanos, solidários e justos. A bondade pedagógica é um princípio inegociável que sustenta a relação educativa e antecede qualquer conteúdo a ser construído. É concreto que o ser humano se constituí na relação intersubjetiva.
A formação integral como caminho continuado exige do sujeito o movimento de iniciar, entendido como introdução a um modo de ser e de viver no mundo. A formação integral compreende as dimensões intelectual, emocional, corporal, espiritual e social do ser humano, reconhecendo que o seu desenvolvimento ocorre em conjunto. A tese defendida por Saviani (2011), elucida que a educação deve promover o desenvolvimento pleno do ser humano em suas múltiplas dimensões. Esse percurso processual distingue o jeito franciscano de educar de modos educacionais convencionais. A formação integral exige compromisso com a vivência do pensamento crítico, analítico e reflexivo, sendo uma alavanca que ultrapassa os muros da escola e segue ao longo da vida.
Diante de uma sociedade marcada pela aceleração tecnológica, pela fragmentação das relações e pela lógica de mercado, torna-se necessário cultivar a dignidade humana como ponto de partida de toda relação pedagógica. A sustentação do jeito franciscano de educar ocorre na articulação entre o ensino, a aprendizagem e a evangelização, dialogando com diferentes contextos históricos sem perder a sua identidade. Sustenta-se na compreensão de que educar é um ato de amor e de fé. A formação franciscana propõe o testemunho, conceito que Nóvoa (1992a) chama de indissociabilidade entre o eu pessoal e o eu profissional do educador. O professor ensina o que sabe e também aquilo que é. Formar-se como professor é um processo identitário que ultrapassa a técnica e apreende a história de vida do sujeito que educa. Do ponto de vista da profissão docente, essa leitura reforça a essência que a tradição franciscana atribui ao testemunho. Santa Maria Bernarda destaca que as palavras convencem, porém o testemunho arrasta.
De maneira rápida, é importante explicitar a dimensão etimológica dos conceitos pedagogia e encontro. Pedagogia vem do grego paidagogía, formado por paidós que significa criança e, agogé que traduz-se em conduzir e guiar. A pedagogia brota no ser presença no caminho do outro em formação. Encontro vem do latim incontrare, de in que indica movimento em direção a e contra que aponta o defronte, diante de. Em síntese, a pedagogia é conduzir e o encontro é colocar-se diante do outro, numa relação face a face. A pedagogia do encontro está no humanizar-se e humanizar na relação com o outro. É na relação com o outro que a vida acontece, compreendendo que a educação se faz com presença e reconhecimento.
Neste cenário, a pedagogia do encontro ocorre no exercício do cuidado, da reciprocidade. Tornamo-nos humanos na medida em que possibilitamos o encontro com outro. Neste encontro ocorre o debate e o embate de ideias, fazendo com que o ambiente da sala de aula seja de construção colaborativa. A pedagogia do encontro brota na generosidade que reconhece a dignidade e o valor no outro, que respeita as diferenças e abre espaço de diálogo autêntico que permite a fala do outro e coloca a sua fala. Busca-se a curiosidade que mobiliza o professor e o estudante ao ensino e a aprendizagem compreendendo-os pela possibilidade de criação e recriação do mundo. Na troca dos saberes a integração entre a teoria e a prática passam a ser vivenciadas na práxis pedagógica. A pedagogia do encontro abrange a sua tese na relação entre os seres humanos e na afetividade ética enquanto estrutura que gera o pertencimento do professor e o engajamento do estudante.
Para tanto, o jeito franciscano de educar se traduz na vivência prática, na forma de vida a ser experimentada nas relações cotidianas entre professores e estudantes. O querer, o acolher, o iniciar e o formar configuram-se na pedagogia do encontro, capaz de responder aos desafios da sociedade complexa estabelecendo relações significativas, sem abrir mão do reconhecimento da dignidade humana como fundamento da formação integral. Trata-se de um convite a acolher quem chega querendo aprender, com a bondade que humaniza, e a iniciá-lo no caminho da formação integral. A sua proposta se inscreve num campo amplo da práxis pedagógica.
Por fim, a educação franciscana tem como tese assumir o processo educativo inspirado nos valores humanos, éticos, morais, espirituais, científicos e ambientais que visam favorecer o desenvolvimento integral do ser humano, essencialmente ligado à transformação da consciência e das relações. Busca-se desenvolver potencialidades, assumindo o compromisso com a formação de um ser humano que possa encontrar-se consigo mesmo, com o outro, com Deus e com a natureza. O processo educativo se faz a partir dos sentidos, das relações da ciência, da filosofia, da contemplação, da observação, da teoria e da prática. Por fim, o jeito franciscano de educar em síntese é o cristianismo traduzido numa vivência prática na pessoa de São Francisco de Assis.